Testosterona não é suplemento: o que acontece com a sua fertilidade quando você toma sem precisar
A testosterona de fora desliga a produção de espermatozoides, e o CFM proibiu a prescrição para estética e massa muscular. Entenda quando a reposição é indicada de verdade.
O homem senta na cadeira e me conta a mesma história que eu ouço quase toda semana. Trinta e poucos anos, treina, dorme mal, anda cansado, a libido não é mais a mesma. Um conhecido da academia toma testosterona e “virou outra pessoa”. Ele já pesquisou, já viu vídeo, já sabe até o nome da apresentação. Chegou no consultório mais para buscar a receita do que para investigar alguma coisa.
Aí eu faço uma pergunta que ele não esperava: você pretende ter filho algum dia?
Quase sempre vem um silêncio. Porque ninguém contou para ele a parte mais importante dessa conversa.
O que a testosterona de fora faz com o seu corpo
Vou começar pelo ponto que mais me preocupa, e não é o coração.
O testículo não trabalha sozinho. Ele recebe ordem do cérebro, através de dois hormônios, o LH e o FSH. O LH manda o testículo produzir testosterona. O FSH manda ele produzir espermatozoide. É uma linha de produção com um chefe lá em cima.
Quando você toma testosterona de fora, o cérebro percebe que já tem hormônio circulando e faz o que qualquer gestor faria: corta a ordem de produção. O LH cai. O FSH cai junto. E aqui está a parte que quase ninguém explica: a fábrica de espermatozoide depende de uma concentração de testosterona dentro do testículo que é muito maior do que a do sangue. O comprimido ou a injeção enchem o sangue e esvaziam o testículo.
Resultado prático: a contagem de espermatozoides despenca, e em boa parte dos casos zera. O testículo diminui de tamanho. Não é efeito raro de bula, é o efeito esperado. A testosterona externa funciona, na prática, como um anticoncepcional masculino. Foi inclusive estudada com essa finalidade.
O homem toma para se sentir mais homem e desliga exatamente aquilo que faz dele fértil.
E depois que para, volta?
Na maioria das vezes sim, mas demora. A recuperação costuma levar de alguns meses a um ano ou mais depois de suspender, e nesse período o casal que está tentando engravidar simplesmente não consegue.
O problema é a minoria. Existem casos em que o eixo não volta ao que era, e o homem fica dependente de reposição pelo resto da vida ou com a fertilidade comprometida de forma definitiva. Quem usou por muito tempo, começou muito jovem ou empilhou outros anabolizantes por cima tem risco maior.
Por isso a Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida orienta uma coisa simples e que quase ninguém faz: quem vai iniciar reposição e ainda quer ter filhos deveria congelar sêmen antes. É barato perto do que custa tratar uma infertilidade depois.
E existe um detalhe importante que muda o rumo da consulta: quando o homem tem testosterona baixa de verdade e quer engravidar, o caminho não é reposição. Existem tratamentos que estimulam o próprio testículo a produzir, em vez de substituir a produção. São outra estratégia, com outra medicação, e é justamente por isso que a conversa precisa começar pela pergunta que eu faço naquela primeira consulta.
O que o CFM decidiu sobre isso
Isso não é opinião minha isolada. Em 2023 o Conselho Federal de Medicina publicou a Resolução 2.333, que proíbe o médico de prescrever terapia hormonal com esteroides androgênicos e anabolizantes para fins estéticos, ganho de massa muscular ou melhora de desempenho esportivo.
A norma libera a prescrição para condições médicas comprovadas, e hipogonadismo, que é a deficiência real de testosterona, está entre elas. O que ela veda é o uso por vitalidade, disposição, estética e performance.
Traduzindo: tratar deficiência é medicina. Turbinar quem está normal não é, e o médico que faz isso está descumprindo a resolução do próprio conselho. Se alguém te ofereceu hormônio para “otimização” ou “modulação” sem investigar nada, isso já diz muito sobre a qualidade daquele atendimento.
Os riscos que não aparecem no vídeo do influenciador
A conversa sobre testosterona costuma parar na fertilidade, mas ela não termina ali.
- Sangue mais grosso. A testosterona estimula a produção de glóbulos vermelhos. O hematócrito sobe, o sangue fica mais viscoso e o risco de trombose aumenta. É por isso que hemograma não é exame opcional em quem usa, é acompanhamento obrigatório.
- Coração. Hipertrofia do músculo cardíaco, pressão alta, infarto e AVC estão entre os efeitos citados na própria resolução do CFM quando o hormônio é usado acima do que o corpo precisa.
- Fígado, principalmente em quem associa anabolizante oral, que é o cenário mais comum na academia.
- Humor e dependência. Irritabilidade, oscilação de humor, e a dificuldade de parar depois, porque ao suspender o homem cai abaixo do nível em que começou e se sente pior do que antes.
- O efeito mais irônico de todos: testosterona em excesso é convertida em estrogênio. Daí vêm a acne, o inchaço e o crescimento de mama, a ginecomastia, que muitas vezes só sai com cirurgia. E, em parte dos homens, a libido e a ereção pioram em vez de melhorar.
Ou seja, o remédio que ele foi buscar para melhorar o desempenho pode entregar exatamente o oposto. Se a queixa principal é a ereção, vale entender antes o que costuma estar por trás da dificuldade de ereção, porque hormônio é só uma das causas possíveis, e raramente é a mais comum.
Cansaço não é diagnóstico
Aqui está a armadilha do meio dessa história.
Os sintomas de testosterona baixa são cansaço, desânimo, queda da libido, irritabilidade, perda de força e de massa muscular. Agora leia essa lista de novo e me diga: o que mais causa exatamente esses mesmos sintomas?
Dormir mal. Apneia do sono. Depressão e ansiedade. Excesso de peso. Diabetes. Tireoide alterada. Anemia. Excesso de álcool. Uma rotina de trabalho que não dá trégua há três anos.
Quando alguém entrega uma receita de hormônio para o homem cansado sem descartar nada disso, o que aconteceu não foi um tratamento. Foi um atalho que deixou o problema de verdade sem diagnóstico, do mesmo jeito que acontece quando o homem toma remédio de ereção por conta própria e desliga o alarme sem apagar o incêndio.
Como se investiga de verdade
A avaliação séria não é complicada, e é rápida. Ela tem três partes.
Primeiro, a dosagem certa. Testosterona total colhida de manhã, entre sete e onze horas, porque o hormônio varia bastante ao longo do dia e uma coleta à tarde pode dar baixa em quem está normal. E não é uma coleta só: o diagnóstico exige dois exames alterados em dias diferentes. Uma dosagem isolada não fecha diagnóstico nenhum.
Segundo, descobrir a causa. LH e FSH mostram se o problema está no testículo ou no comando lá em cima. Prolactina, tireoide, glicemia, colesterol e hemograma entram para achar o que mais pode estar por trás. Em muito homem, a testosterona baixa é consequência do peso, do sono ruim ou do diabetes, e ela sobe sozinha quando essas coisas são tratadas.
Terceiro, checar se pode. Avaliação da próstata com PSA e exame clínico, hematócrito, pressão, e a conversa sobre projeto de filhos. Reposição não é decisão que se toma na primeira consulta com um exame na mão.
Sem esses três passos, não existe indicação. Existe chute.
O que sobe a testosterona sem receita nenhuma
Essa parte costuma decepcionar quem queria uma solução rápida, mas é honesta, e funciona.
Perder gordura abdominal é o que mais muda o jogo. A gordura converte testosterona em estrogênio, então cada quilo a menos na barriga trabalha a favor. Dormir sete a oito horas de verdade, porque boa parte da produção acontece durante o sono, e a apneia derruba o hormônio de forma brutal. Treino de força, mais do que só esteira. Controlar álcool. Tratar diabetes, pressão e tireoide.
Não é raro a testosterona voltar a subir sozinha quando essas coisas entram no lugar, sem tomar nada. E, diferente do hormônio, esse caminho não cobra a fertilidade como pedágio.
Quando a reposição é indicada, ela é ótima
Não me entenda mal: eu prescrevo testosterona, e prescrevo com convicção.
O homem com hipogonadismo confirmado, com sintoma real e exame que fecha diagnóstico, muda de vida com a reposição. Disposição, humor, libido, massa muscular, densidade óssea. É um tratamento bom, seguro quando bem indicado e bem acompanhado, e negar isso a quem precisa seria tão errado quanto oferecer a quem não precisa.
A diferença entre tratamento e problema não está no remédio. Está em três perguntas: você tem deficiência de verdade, qual é a causa dela, e você ainda pretende ter filhos.
Onde eu entro nisso
Na consulta a gente investiga o cansaço inteiro, não só o hormônio. Peço os exames na hora certa e do jeito certo, procuro a causa, avalio próstata e coração, e converso sobre planos de ter filhos antes de qualquer decisão. Se a indicação existir, a gente trata com acompanhamento. Se não existir, eu te digo isso na cara, e a gente ataca o que está realmente causando o sintoma.
E se você já está usando por conta própria, não precisa chegar aqui com vergonha. Chegue e me conte, sem julgamento e com sigilo, porque quanto antes a gente olhar os seus exames, mais fácil é proteger o que ainda dá para proteger.
Não sofra com isso em silêncio. Procure seu urologista para avaliação.
Dr. Pedro Lugarinho Menezes. CRM-SP 161726 / RQE 91992. Atendimento em Sertãozinho e região.
Dr. Pedro Lugarinho Menezes · CRM-SP 161726 / RQE 91992 · Atendimento em Sertãozinho e região.